fluido e natural, a palavra está em mim feito tua respiração na minha. e é tamanha a simplicidade com que, amortecidos pela idéia de continuidade, deixamos de aprofundar o que em outros tempos nos foi tão fácil o acesso.
o tempo deposita então sobre nós suas folhas caídas e secas.
permanecemos então esquecidos do que outro dia fora apenas rito. tão fácil o acesso à rotina que simples, esquece-se. tão importante me foi ofertar o que sinto e aqui a dificuldade para a que a palavra saia da boca, as frases ficam pela metade. a fluidez de um ano, o peso do cotidiano. a transparência do que se sente turvando-se ante aos impuros ares das cidades em que ando.
tão natural deveria ser a fluidez com que saem de minha boca mas agora em silêncio escrevo-te e é em minha cabeça que as pronuncio silenciosamente.
se a palavra é meu domínio sobre o mundo descubro agora que não domino então o que eu sinto, tão árduo o caminho da compreensão do que se sente e de suas propriedades, profundezas e desdobramentos.
não sei o que será de nós após este final de semana. mais, (aos poucos me recupero desta perda de memória recente) muito mais que o imediatista desejo que sobrevivamos à distância encurtando-nos ideologicamente. o que é o que eu sinto por ti senão um encantamento filosófico? nalgum dia o brilho acaba, seja pela morte do ser seja pela morte do estar também, e então desencanta-se. logo cultuo o que tenho por mim enquanto vivo, dotado não pela insistência de deus em que todo cacto deve explodir espinhos de vida e de que o universo inteiro é dotado do viver, insistentemente vivendo; mas o que disponho de mim sobre ti e de ti sobre nós - eterno equilíbrio - entre mim e os deuses, entre o eu e o tu.. eterna influência lispectoriana que me impele a respirar o que desconheço e preservar inclusive meus defeitos a me sustentar em pé.
e o que disponho da gente é a minha aspiração de vida ao me deparar conosco. este é motor, este é o meu impulso de vida. vida a dois. é estranho que há um ano atrás eu tenha, a esta altura escrito mais de dez páginas e hoje eu esteja equilibrando-me entre o deixar fluir-me na escrita e voltar atrás a suprimir repetições, eu vagando entre a frustração de uma fome ainda não saciada, pelo que experimento ante minhas frustrações diárias contrapostas à ouvir tua voz, teu riso, tua gargalhada por uma piada que só você mesmo para achar graça!
fruto da solidão que só quem ama é que tem conhecimento, mesmo a mais distante das amantes se aproxima com uma velocidade impressionante de seu objeto de desejo. o que antes de ti era objeto, materializa-se e voilà estou diante de você e não lhe defini anteriormente: objeto quase, tratava-se.
e neste exercício diário de afirmação é que habito.
a afirmação do que desejo de mim contigo e de ti comigo também. tão difícil deixar simplesmente que seja! eu, apaixonado por saber que mares navego.
é demais para os outros mas o ideal para mim: saber ao menos a direção em que inclino-me.
muito além de ser por você pelo que és e por mim pelo que sou é pelo que sentimos quando unidos. a preservação então do teu patrimônio em mim. e o tempo? com o tempo deixa-se claro o que é antigo e o que é a mais atual das intervenções, profunda relação entre o que nossos desejos em marés de sal e sortilégio fazem surgir e ruir dentro de nós. aos poucos sobem estatuetas aqui dentro, calma e sutilmente minha boca esvazia-se de ti, 'a tua boca anda oca da minha língua'.
e é dentro deste edifício em que ora habitas, ora visito, é que a atuação do eu-histórico se revela, jamais quer apagar os traços do tempo 'a açoitar o mastro' mas com a mais objetiva das separações: aqui estaremos então diante do mais antigo desejo romântico em ver-te em árvores estáticas de um dia de sol; e ali partilho de minha mais nova respiração a compassar-se com a tua, em memória daquilo que fomos na última vez em que nos vimos e que faltou tempo para tratarmos daquele assunto importante.. preferiu-se calar e assim entender.
confesso que me dá vontade de escrever cada vez mais, como se aos poucos as novidades pulassem em minha frente e assim nunca mais seria permitido dizer apenas 'meus parabéns'.
para além de parabeniza-lo pela sua existência, estou mais feliz por existir em nós dois. para além de um ano a mais, que estejamos há um ano de mais um brinde por nós dois.
daquele objeto materializa-se a faceta afetiva e emocional que eu atraí em todos os ritualísticos pedidos: que tivesse então um olhar afetivo.
tua empatia me inspira. tua aresta lunar, sentimental, ora fria e distante e não surpreso permaneço diante da dificuldade da expressão, embora as sensações sejam mil, mesmo gris.
é como procurei então me organizar. muito além de planos, eu quis romper com o molde e ir de encontro, a longo prazo, ao que eu poderia construir cotidianamente ativo. não se pode abandonar por completo algumas estruturas tão historicamente embasadas.
você está presente em todo o meu cotidiano. inclusive no meu esforço em deixar claro o contrário! para que então não te acostumes em compasso ao teu ascendente taurino, disposição dos astros, com esta constância do sentir, tão necessária também ao meu sol. alimentemo-nos, pois algo me soa complementar no que sentimos. e não tenhamos medo do embate, mas que então a disposição do eu junto não se quebre jamais exceto perante a morte biológica, sinto dificuldade em lidar com a morte filosófica. que o nosso ciclo perdure então e assim encontremos paz em nossas mesas de café da manhã depois de termos despertado de uma 'noite de quem sou eu com você' a perder de vista os minutos: seu peito sobre o meu, teus pêlos sobre os meus pêlos.
tornei-me esta colcha de retalhos linguísticos e é a mesma técnica que utiliza-se para tecer também o que sentimos um pelo outro. eterno fiar, eterno fiar, eterno fiar, eterno fiar diário, diário fiar tecendo o que nos cobre, o que nos alimenta e esquenta e nos qualifica. diário exercício do outro e do que o outro pode dizer de mim.
.
feliz aniversário pela pergunta
feliz aniversário pela diferença
feliz aniversário por todos os meus defeitos
e pelos teus também
feliz aniversário por existires tão insistentemente em mim
ao despertar que tu me acompanhe
e ao deitar que estejas ao lado meu.
sábado, 20 de julho de 2013
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
O Lago
No verdor de meus anos, meu destino foi só
habitar, de todo o vasto mundo,
uma região que amei mais do que todas,
tanto encantava a solidão
de um lago selvagem, que cercavam negras rochas e altos pinheiros, dominando tudo.
de um lago selvagem, que cercavam negras rochas e altos pinheiros, dominando tudo.
Mas quando a Noite, em treva, amortalhava
esse recanto e o mundo,
e o vento místico chegava,
murmurando melopéias,
e o vento místico chegava,
murmurando melopéias,
então, ah! sempre em mim se despertava
o terror desse lago solitário.
Não era um terror, porém, de espanto,
mas um delicioso calafrio,
sentimento que as jóias mais preciosas não inspiram, nem fazem definir;
nem mesmo o amor, nem mesmo o teu amor.
Reinava a Morte na água envenenada
e seu abismo era um sepulcro digno
de quem pudesse ali achar consolo
para seus pensamentos taciturnos,
de quem a alma pudesse, desolada,
no torvo lago ter um Paraíso.
Tradução de Óscar Mendes e Milton Amado do poema "The Lake" de Edgar Allan Poe.
Tradução de Óscar Mendes e Milton Amado do poema "The Lake" de Edgar Allan Poe.
terça-feira, 29 de maio de 2012
cotidianamente odiável
perdi minhas tardes solitárias. o cotidiano é uma desgraça expressa no almoço da classe média baixa na sala de jantar e em silêncio ensurdecedor. acentua-se ainda mais quando exijo meu direito ao grito e ele é abafado por um pedido rude: 'é possível que você se cale?'... tão arcaico quanto a necessidade de expressão do homem!
não consigo suportar nem de longe os noticiários futebolísticos característicos deste período do dia e as louças em cima da mesa com bagaços de laranjas descascadas com as cascas em caracóis. nem a necessidade de açúcar é capaz de felicitar-me. sem bicicleta com cestinha para sair andando o terremoto na itália parece ter reverberado por aqui no meu quintal.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
autocêntrico
é na agulha grossa em que meu cotidiano se enovela
que aos poucos costuro-te em mim
então desabrochas feito tecido mergulhado em tinteiro
e emerge sua imagem
foi na tarde em que descalço fumava e de repente o anoitecer veio de baixo
pelos pés frios que senti a noite que se anunciava em fulminantes ventanias
diante da evidência cabal que em presságio surgiu
com o ato público da exposição de mim
(secretamente estivestes comigo)
o tabu da humanidade é lidar com o próprio corpo
o meu e o teu
contentes,
meus pelos
inclua também os que ficaram sobre o leito
sobre a imensidão de tua pele
são testemunha
foi da nascente que surgiu
de nosso encontro
encharcando o lençol
que retiro meu presente
o próximo e o distante
completando-se em força física
a força de amor aparece no mínimo
quando nossos corpos interagem
a força que nos guia
é na calma e na leveza
que se encontra a face de nós dois
é a vereda que entramos
à passos
lentos, que continuamente
atrairão meus polos
junto aos teus
segunda-feira, 21 de maio de 2012
é chegada a frente fria
o presente perece a medida em que o amanhã torna-se mais esperado que a próxima hora, o próximo minuto, segundo. eles estão a anteceder e permear a chegada do tempo outro que, espera-se traga consigo boa aparência.
vivendo entre a linha tênue que separa imperceptivelmente o hoje do amanhã, que se desfrute de uma tarde de trabalho intensa, seja dentro ou seja fora. não foi possível encontrar palavras para dizer o que me invadira: a URGÊNCIA em deixar de pensar se o concreto vale a pena se a alma de quem o concebeu não for pequena. a vida útil de uma pedra é de milhares de milhares de anos, mas a caverna desenhada e enfim em pé alí está para ser destruída, modificada, ampliada.. algumas sequer deixaram de ser idealizadas, foi no papel que encontraram morada. assim a frente fria invade o céu daquele recente bairro em que brotam novas cavernas, de infindáveis formas, úteis ou não, funcionais ou não ali estão para ser observadas e algumas até possuem jardim. outras possuem poços que ousam intitular piscina. todos os defeitos estão também para ser visualizados. o amanhã há de chegar e será possível que se veja totens erguidos a completar a cada ano, um ano a menos de sua vida útil ante a paisagem de um bairro resumidamente residencial. a vida prática é feita de sonegações em suma. questionar-se será o mais novo estagnar-se ante às opções, cada vez mais escassas. está chegando o momento em que poderei destruir a medida em que erguerem as paredes: me desconstruindo. é chegado o momento em que levantarei construção, fruto de pequenas destruições. "todo muro é ótimo, desde que segure o teto".
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
última parte: o alarme dispara e o filme acaba.
quando entrou o silêncio entre nós e a ação partiu de mim, o que outrora ainda pairava às sombras da incompreensão hoje encontrou alento no ressoar do alarme.
o alarme disparou e segundo seguinte, cobriu-me a barriga com suas pernas e sentou-se. me aqueceu sem que eu pedisse, mas foi embora sem que eu o fizesse também.
com o mesmo silêncio que me deixou descoberto e nu diante das paredes inanimadas da sala de televisão, fiquei ali a encontrar justificativa para o beijo negado. quando do momento em que o alarme soou passei minhas mãos já aquecidas pelo meu torso e me senti então repleto de uma sensação incrível que não conseguiria descrever. e o indescritível continua aqui comigo embora ele tenha deixado pra trás a casa já sem insetos e com o chão limpo; ainda ontem estive eu a higienizá-lo.
eis que nos separamos e hoje acabo por entender seu sumiço: para que não mais o apavore o terror de minha respiração, como o tempo que açoita o mastro dos barcos e as rajadas de vento chicoteiam as velas - em sua mandíbula trêmula.
oferecestes tuas duas faces a fugir de minha boca que buscava o atalho para a fuga no mesmo minuto em que escutei lá atrás alguém dizer meu nome.
pois que a vida é tão insignificante quanto os minutos que tilintam nos ponteiros dos relógios de parede das casa, ou os digitais no microondas, de hora em hora como quem conta até dez pau-sa-da-men-te.
não mais procurarei meu flagelo, pois ainda ontem lhes disse que aceitei minha condição e a partir de agora vivo apenas de mim. pois "a pessoa é para o que nasce". e não fui nascido para ser deixado para trás, não haveríamos (eu e minha mãe) de termos suportado a dor do parto para que outras dores viessem paulatinamente me assombrar.
já tua presença não se faz necessária, nem teu corpo pois descobri ainda agora os lençóis embaixo da cama.
pois que hoje quando ainda sobre meu corpo ele silenciosamente desejou ir embora, foi como se o senhor dos relógios soubessem e neste mesmo segundo, no intervalo de um microssegundo para outro: o alarme gritou. ainda deixei alguns minutos, pois que seja então decretado o estado de emergência!
questionou-me se eu não ia desligar enquanto se arrumava. meus pés queimaram no caminho até o relógio e desliguei. foi-se. e não levou consigo nada de mim.
trouxe pouco... e leva ainda menos.
o novo ano que lateja nos presépios, entre um burro e uma cabra, trará consigo o passar do tempo, o acordo já foi feito. no tempo será deslocado e não estarei aqui para assisti-lo desbotado.
pois que a partir de agora em diante tu serás, a mim, para sempre desimportante.
há que conviver com sua culpa enquanto constrói aos poucos sua vida de areia sobre pedras deslizantes. e eu? eu continuarei só.
só que longe.
*
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
eu aceito

nova era no lar. onde a atmosfera solitária enquadra meu autoretrato.
onde minhas tarefas confundem-se com minhas reais necessidades e o que tenho de mais precioso custou-me cinco reais.
a era recém-inaugurada traz silêncios e vazios cortantes consigo e o que busco é aceitar, resignado minha condição.
o telefone toca, mas hoje não vou atender ninguém.
silencio-me perante o chão de um gris brilhante. corto o alho e preparo o arroz ao som do nada e o que me resta é a profunda sensação de que serão sempre as coisas tal qual o foram na origem.
o que modifica-me é o verbo conjugado.
todo o dia é um mistério pisado.
seja bem vindo a este lar dedetizado!
quarta-feira, 4 de maio de 2011
i failed
dias e dias correm pelo relógio. são horas e minutos que, descompassados, alternam-se entre a silenciosa luz, turbulento black out.
os dias terminam, 'a manhã nasce'. do banco, a deixar escorrer pelas mãos a água do milagre que esteve pra acontecer. mas milagrosamente anunciou-se a licença à esperança. estaremos de recesso, de agora em diante por tempo indeterminado.
mas que tal tempo que ora aperta, ora se ajeita e acaba cabendo
aqui dentro
sejamos, pois os donos dos ponteiros e cuidemos com tal zelo do sino que toca
já é tarde
nada se desenha no céu, ainda
assim que o sol desvirginar a madrugada
na sua vã tentativa
em extremos casos, de aquecer aquilo que a lua durante a noite prateou
o brilho frio que não acalenta aos que o teto falta
aqui de dentro, confirma-se o direito de dias inéditos
pois que o pôr-do-sol anunciando a entrada dos ventos de vênus a brilhar cintilante
a cada dia a menos a individualizar o fim da tarde.
a esta altura já faz frio
o mesmo frio do dia marcado pela melodia amaldiçoada de outrora
anuncia a entrada do outono: o verão mal findou-se ainda ontem
e o inverno já espera sua vez, aguarda ansioso as fragrâncias adocicadas que emanam de todos os casais. anseia também a tensão que é possível sentir de cada indivíduo no momento em que aguardam abraços quentes de ponchos vermelhos, 'luvas ocupadas com frequencia nesta época do ano'.
entre tais épocas discorrem sobretudo
as frequencias de 'trás do pensamento' que como ondas hertzianas se dissipam entre um minuto e outro,
mais parece a imagem gravada pela abertura de um obturador qualquer, sem intenção
a imagem da cidade quando entardece,
as luzes dos postes e antigos candeeiros a relembrar tempos remotos
acabam por tingir aquele pedaço do céu de cor pastel em tons de laranja escuro
algumas estrelas acabam ofuscadas e dão-se o direito de serem observadas apenas sob o crivo de talentosos binóculos e lunetas
curiosos em silêncio aguardam
o término do ajuste de marte em capricórnio ao alto do céu ariano
e o gato permanece dentre as flores congeladas
olha-se um miado mudo
a pedir acalantos breves
a deslizar entre as pernas
mais leve que as próprias folhas a enquadrá-lo
dá o que comer ao gato e ao cão
e deita no chão
e não se levanta
até que 'se nasça' um dia em que se possa sentir no ar,
feito o sútil farfalar das borboletas
aquela sensação purificante de muitas possibilidades
..a renovar seus tecidos nasais lentamente.
eu queria ter o poder de escrever sobre tudo.
*
quinta-feira, 14 de abril de 2011
"Better Alone" *
E toda vez que eu penso que está tudo resolvido,
Algo me mastiga e me cospe
Mas não há nada mais a temer
Eu sou melhor sozinha, minha querida Eu sei que eu deveria mesmo agradecer-te por me deixar livre
As mudanças que estou começando a sentir são realmente maravilhosas
Não demorará muito até eu me sentir feliz e forte
Estar livre ajudou na minha cura,
apesar de
me perguntar se você alguma vez
quis me ter ao seu lado Um dia eu irei esquecer?
Todas as coisas boas entre nós parecem estar desaparecendo
E toda vez que eu penso já ter tudo resolvido,
algo me repreende e me faz explodir
Mas não há nada mais a temer
Não, não, não...
*composta por Melanie Chisholm
.
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o melhor sempre é inimigo do bom
terça-feira, 12 de abril de 2011
deu(grau) no noticiário
segunda-feira, 11 de abril de 2011
"o golpe da graça"
"FALTA apenas o golpe da graça - que se chama paixão. O que estou sentindo agora é uma alegria. Através da barata viva estou entendendo que também eu sou o que é vivo. Ser vivo é um estágio muito alto, é alguma coisa que só agora alcancei. É um tal alto equilíbrio instável que sei que não vou poder ficar sabendo desse equilíbrio por muito tempo - a graça da paixão é curta. Quem sabe, ser homem, como nós, é apenas uma sensibilização especial a que chamamos de "ter humanidade". Oh, também eu receio perder essa sensibilização. Até agora eu tinha chamado de vida a minha sensibilidade à vida. Mas estar vivo é outra coisa. Estar vivo é uma grossa indiferença irradiante. Estar vivo é inatingível pela mais fina sensibilidade. Estar vivo é inumano - a meditação mais profunda é aquela tão vazia que um sorriso se exala como de uma matéria. E ainda mais delicada serei, e como estado mais permanente. Estou falando de morte? estou falando de depois da morte? Não sei. Sinto que "não humano" é uma grande realidade, e que isso não significa "desumano", pelo contrário: o não humano é o centro irradiante de um amor neutro em ondas hertzianas."
Lispector, C. em A Paixão Segundo G.H.
quinta-feira, 3 de março de 2011
escrito e para ser lido ao som de 'Oração ao Tempo*'
*
*
como uma máquina gravadora onde filmagens imagens são sobrepostas, onde tudo cabe e no fim perde-se. somos fragmentos no fundo. programados automaticamente.
facilmente recorda-se de um pedaço aqui e outro ali.
juntos talvez virem uma história que nunca existiu: quando hiperbólicamente aumentamos sem a menor restrição a história que se conta, ou como se sobrepuséssemos esta, na imagem que realmente existiu: as chamadas mentiras que passam despercebidas. nem nossa automáquina compreende, as vezes nem assimila. de repente torna-se verdadeiro. onde as imagens do inconsciente, tanto o individual quanto o coletivo cruza-se formando uma outra história.
não é possível esquecer por completo, assim, como naquele calendário pendurado e que as vezes só me lembro de virar a folha no quinto dia útil do mês. ainda assim há urgência.
imagens novas sobrepostas.
um pacto não sei se a favor ou contra o tempo: depende da posição que ocupa (na maior parte do tempo).
existirão sim as imagens que não se quer re-ver. e que, dependendo de sua intimidade com o compositor dos destinos, e da profundidade do acordo com ele que és um dos deuses mais lindos: se preciso ou propício o tempo-tempo for.
círculos fechados e então não serei nem tu terás sido.
qual o seu nível de vínculo?
*
*
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
sem título
preciso do toque
da proximidade
sou de cheiro
de gosto
abri a porta e tudo estava jogado.
antes de sair tratei de espalhar, pois quando se amontoam sentimentos a sensação que dá é de unicidade
e minha busca era a pluralidade
entre meus objetos, muitos papeis de difícil desapego
o bilhete daquele show que a desconhecida não mereceu, mas que dediquei-lhe em silencio.
invadi aquela sala que por tanto esperei vazio ali sentado,
observando manchas que na parede poderiam ser baratas calculistas
recolhi o que se espalhava, até que a sensação veio, do pouco que tenho,
unificado em grandes sacolas de plástico.
subi as escadas, pra não tão cedo desce-las.
estou partindo
me viro e fito olhos azuis que em sua fulminante bondade me beijam
lamentam!
não há o que lamentar, respondo.
entrei no carro e a medida que ele seguia, fechei os olhos, para não lembrar o caminho.
para que na próxima vez, seja novo novamente
.
olho pro lado, não estive sozinho
não havia explicação plausível de tais presenças
senão aquela,
que não se mede
que não se paga
senão aquela,
que sem título, intitula
o que, sem nome,
chamamos de alma
estamos fadados
ligados
entrelaçados
e apenas uma palavra, pouco bem empregada
tenta nos definir: amigos.
.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
aceso.
Acendeu um cigarro,
Tragou
E o sol firme acima dele
Sentia até o reflexo das chamas
Ao colidirem sobre as superfícies
Os materiais
Nada mais que a Terra moída
Injeta-se ânimo
Mais um pouco da massa-de-liga
Repentinamente ,
Somente a consciência nua e crua é a verdadeira
ouve-se
deixei de lado que a verdade não existe
cria a tua!...cri-atura
(inventa a tua!)
O reflexo da nuvem
Entre o sol e a cria-tura
(cria-a-tua)
O alívio...
Me internalizo
Internaliza a criatura
(cria-tura)
Que bobagem, a tua.
.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
às baratas, que uma vez debaixo da cama, deixam o anonimato
A Quinta HistóriaEsta história poderia chamar-se "As Estátuas". Outro nome possível é "O Assassinato". E também "Como Matar Baratas". Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.
A primeira, "Como Matar Baratas", começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim fiz. Morreram.
A outra história é a primeira mesmo e chama-se "O Assassinato". Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranqüila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu e preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos cantos enquanto a gente dorme, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.
A terceira história que ora se inicia é a das "Estátuas". Começei dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco de comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer de Pompéia. Sei como foi esta última noite. Sei da orgia do escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e como tal, tal olhar de censura magoada. Outras - subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! - essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te...
Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: "é que olhei demais para dentro de mim" é que olhei demais para dentro de..." - de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.
A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-à uma nova população lenta e viva em fila indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula atéo pavilhão? no vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha seria do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: "Esta casa foi dedetizada".
A quinta história chama-se "Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia". Começa assim : queixei-me de baratas.
Lispector, Clarice. A Quinta história . In Felicidade Clandestina . Rio de Janeiro, Rocco, 1998
*
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
"Faíscas das britas e leite das pedras"

me demoro dias, esperando que aconteça
me escondo na fatalidade
e encaro a fome de vida
a minha
a nossa
porque me felinizo ao ouvir
a melodia noturna me toma
me escondo faltalmente atrás das nuvens
e em segundos, assim como o gato na lua
dispersa-se
qualquer ruído me atenta
prefiro o pulo à pedir licença
me assusto
de quantas vivalmas precisarão a mais, eles?
da minha!
socorro-me as lâminas
que de papelão que são
iluminam-me
assim como a luz da lua
no gato.
acelero, me freio e breco
afronto-me
afronte-se
me solidarizo comigo
solidarizemo-nos
houve abandono
de outros, mas não de mim mesmo
de grão em grão
a galinha rompe a casca
do ovo
*
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
sem título

escrevo agora como um projeto inacabado
que aos poucos adota e adota novamente e depois mais uma vez, já percebeu que a vida é um adotar constante?
adota-se uma vida, e vive-se.
pois não vive-se mais pela vida... porque a vida cai aos pedaços ao nosso lado, e
as pessoas caem
nosso pais caem
e nossos heróis estão todos mortos
sou um eterno quase
assim mesmo
quase
amadureço
no fundo, somos eternas crianças
algumas não souberam amadurecer
outras amadurecem,
ou melhor,
outras quase que amadurecem rápido demais
mas mesmos estes, ainda estão ligados e formados
pelo que já passou de si mesmo
o passado, o peso do passado de hoje
do que o passado representa hoje
seria o ontem?
vive-se no quase tudo tem nome
e é por isso que querem tanto enquadrar-se em algum quase!
mas morre-se todos os dias,
não se escolhe o quase para morrer
por mais que dividamos,
sempre ligeiramente sem saber
que aqueles que quase morreram
admitam "valorizar a vida"
os acidentes!
a vida é mesmo um acidente, nasce-se
por acidente
quando começo, em um pulo,
e alcanço logo um "quase justificar-me"
tudo aquilo que quase aconteceu
o quase-amor
a quase-viagem
o quase-sonho
e sabe que quase me vicio na dor?
...ela, minha companhia
agora estou sendo quase-piegas
também sou um quase-romântico.
e a raiva diária desconta-se em si mesmo
a raiva pelo silêncio
como seria se eu tivesse vencido o quase,
e quase tivesse ido embora
sem a minha segurança
mas eu sempre soube
agora acho que estou confuso
comigo mesmo
essas confusões que nos acometem
alguns passam incólume,
mas por pouco tempo
elas sempre voltam..
as memórias munidas todas de seus inúmeros "quase's"
pra quê tanto sofrimento?
muda-se o próprio destino
(agora o destino quase-existe)
há que sentir o peso daquilo que é considerado "responsabilidade"
era isso então?
existem tantas perguntas
somos quase todos repletos de interrogações
percebe-te, não te perguntaram nada
os vícios justificam-se
inúmeros vícios
tenho vício pelo prazer
há que se ter prazer também
acredito também que programa-se, como novelo de bicho da seda que aos poucos tece fio a fio - tira-nos os chumaços de algodão e logo vamos a tecer outros,
prazer digitalizado, alienado, virtual
a história musicada
trilha por trilha
músicas que nos levam a outro lugar
os músicos e poetas são tão mentirosos!
ilusórios.
e a arte passa mesmo a existir,
correto estivestes quando dissestes,
por tornar vivível a vida
por defrontarmo-nos diante dela.
agora senti a dor do corpo
do peso do corpo
sobre o corpo
todos somos sensíveis a nós mesmos
sensíveis ao próprio toque
e quem provavelmente quase não sentiu-se hoje
perdeu tempo sentindo o outro
sentir mais o outro que a si próprio também tem seu preço
se eu sempre soube como seria
se por todo sempre eu soube das existências dos quases e suas causalidades
hoje vou atrás de qual quase?
como aquele desenho que quase se terminou
aquele amanhecer que ficou começado no pedaço de pano da vida
ou aquela noite inacabada com o pincel ainda úmido do lado
(a cena: queima-se outro cigarro)
a felicidade como um outro quase
o amor como um quase
o "quase-amor"
a certeza de que
"o amor e a felicidade juntos, é quase um milagre!"
então nos deparamos diante do tão dito amor
hoje transformado em projeção de todos os "quase's"
o amor não se define -
e estremece entre
"a liberdade do objeto (o outro)
----------------------------------(o amor)
e a liberdade do sujeito (o eu)"
e emburrece diante de sua impossibilidade
agora ele deveria chamar-se então quase-amor
justifico agora a morte do outro
justifico a morte do sujeito
foi por uma falha: a confusão do objeto
o objeto torna-me e
confundo-lhe, o amor (me consola sua impossibilidade)
nossos, erros.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
sêca em mim

amanhã completaríamos dois anos, se estivessemos juntos.
me permita a arrogância de dizer que já sabia como seriam percorrer meses após minha partida
partida consentida.
mas não imaginava tamanha dor que lateja em peito meu agora
tá tudo aqui dentro ainda
era tão óbvio, mas eu imaginei que seria diferente
tamanha traição!
pela sensação de traição que deixaste em meu peito entreaberto
desde então estou desabitado, em hiatus
vazio
só
uma luz fraca ainda insiste em iluminar os vultos do passado
e faz sombra em paredes minhas
teu refúgio cavernoso ainda é iluminado
anseio a hora de que a escuridão chegue
já sinto sua aproximação
dolorosa sensação de viver sem ti
eu morei em seus olhos,
parecera que há anos procurava abrigo
mas fui expulso, tive que consentir minha saída
vaguei sozinho em busca de teto,
e era guiado pelos fios de teu cabelo
que fiz corda
estava escuro
são tantos arrependimentos
tão desesperadores
ainda ardo feito floresta seca
não houve mais chuva
água nenhuma
choro nenhum caiu do céu
muito de mim se eternizou naquele instante congelado
tarde no parque
em que teu retrato eu fiz
era essa imagem que eu gostaria de levar pra sempre comigo
e muito embora por vingança eu tenha abandonado em casa vossa
ainda relembro,
(e dentro de mim mais kilômetros quadrados queimam a cada reviver
que o cheiro da tua pele me traz)
assim, sem explicação me invade
não posso te extirpar de mim
não consigo
tenho de admitir
poupo-me deste porquê
já não procuro resposta alguma
triste descompasso
que sinto então em peito meu
assemelha-se tanto ao nosso fim
há tanto tempo anunciado!
só não vejo mais vida além-ti
mas não me trouxesses tudo
mas me invadistes,
feito onda que alcança canoa parada na areia
e a leva mar adentro
e dentro de mim, como há de haver outra vida?
apago a luz
a espera aflita,
finjo que pode-se morrer
e que com a morte tudo se acaba
quem sabe,
tudo aceso, queimando em mim
sem cessar jamais
as labaredas rasgam minhas terras
desde então improdutivas
invado-me
em desespero
tentativa inútil
de salvar ao menos um punhado
para que algum defeito
deste jardim que sou eu
ali floresça
e feneça.
*
Âmbar - Adriana Calcanhotto
"tá tudo aceso em mim
tá tudo assim, tão claro!
tá tudo brilhando em mim
tudo ligado,
como se eu fosse um morro iluminado
por um âmbar, elétrico
que vazasse nos prédios e banhasse a lagoa
até são conrado
e ganhasse as canoas,
aqui do outro lado.
tudo plugado
tudo me ardendo
tá tudo assim queimando em mim
como salva de fogos
desde que sim eu vim morar nos seus olhos"
*
terça-feira, 2 de novembro de 2010
(re)partir

eu quero circular
a escala da cidade
me diverge de ti
embora o teu desejo
seja também como o meu
extravaso-te
e entro
sou o alvo dos olhos do mundo
me ressinto
me perseguem
como
do que me ofereces
pois ainda há fome
em mim
em ti
em nós
o espaço inflado
meio metro quadrado
meio quadrado
é meu
o caos reina
em ordem minha
minha miséria
está colada na sua
abaixo a cabeça, mas aguardo
ansioso para ergue-la
reconheço em mim
nossas ânsias
estão entrelaçadas
embora eu me ilumine todo
e tento.
eu consumo
e vivo,
espasmo muscular
enquanto ando pelas águas,
leve torpor
milhares de outros glóbulos
que me foram sonegados
pulsam
e por si só
são menos onerosos
as fibras musculares rompidas
a dois passos de mim
queridos vizinhos,
salvem-se se puderem
pois minha descoberta continua
dor lúcida
o iminente "só"
o que comemoras?
se em mesa tua
repousam as coisas
inanimadamente
animadas por vós?
há que se pagar um preço alto
por passar incólume às existências
facilmente sonegáveis
corpos que caem
e levantam-se
mais um dia na cidade
inegável solidão
partilhada!
domingo, 24 de outubro de 2010
amém
eu vivo das migalhas cristãs que caem do altar, como quando mentem que as bençãos serão derramadas diante de tanta tragédia e desgraça.
o seu deus, está longe de você, e você só o ama, por não amar-se.
o seu deus, é aquilo que você finge arrepender-se quando encontra em si. o seu deus é meramente projeção. e como toda projeção, meramente ilusória.
pega teu altar e teus frágeis discursos e permaneça em teu trono.
enquanto na senzala, cresço, e vivo só de raiva e teimosia.
obrigado pelos teus nãos, mas tenha consciência de tuas palavras.
temer a deus é temer-se a si próprio e sinto pena de ti, embora nunca tenhas pena de mim, ainda bem!
continue cuspindo pra fora, toda bobagem bíblica, saramago tinha razão quando dizia que aquele livro era um manual de maus costumes.
a mim, teu discurso sem pé nem cabeça, mais parece um vômito.
"deus nos dá aquilo que precisamos, nada mais"
que triste sois vós, com sua rasa noção de mundo!
eu, se fosse deus, ficaria furioso com tais palavras! como você sabe?
e todas as fomes que existem agora sem ter oportunidade de serem saciadas?
"é porque não precisam", dirias tu.
"enquanto continuar inventando deus, ele não existe!".
eu, continuo embaixo do altar, próximo ao inferno talvez, divido espaço com ácaros, no quarto que denuncia teu descaso com o que "deus te deu". talvez você precisasse mesmo de um espaço pra onde pudesse empilhar teus entulhos e teus lixos! enquanto sem tetos invadem edificios que "não cumprem função social". não é mesmo?
que todos como vós, dobrem a língua e comam a própria carne antes de se auto-proclamarem "cristãos".
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